Domingo, Janeiro 17, 2010

'Cause you're not bitter and I'm no good

Tenho ouvido constantemente pedidos de atualização do blog, merecidamente por sinal. Afinal, ainda não publicamos nada em 2010. Mas a verdade é que estou sem nenhuma inspiração para escrever e Antônio anda muito ocupado na sua profissão de analista de xixi e inventor da argila em pó instantânea. Sim, Antônio trabalha em um laboratório à la Dexter e é o típico cientista maluco que patenteou a argila em pó instantânea que revolucionará o mundo da indústria e a forma de fazer xixi das pessoas. É algo sério e ele acaba ficando sem tempo para escrever.

Já eu não tenho essa desculpa. Não tenho nenhuma patente em meu nome e o mais perto que eu já cheguei de ser uma cientista maluca foi quando eu usei meus óculos de grau por cima dos óculos escuros no trabalho. Eu trabalho em um banco, aliás, e não passo meus dias analisando o xixi de ninguém. Desse trabalho entediante e repetitivo não tem saído nada que fosse pelo menos engraçado e, para completar, eu perdi minha musa inspiradora. Ou melhor, meu muso.

Desde que o sapo encantado virou homem e eu desci do meu pedestal de princesa, parece que nada aconteceu na minha vida. Eu tenho andado por aí meio às cegas, buscando algo ou alguém que preencha esse espaço vazio que ficou, mas não encontro nada. Então, escrever sobre o que? Nem eu tenho mais paciência para ouvir minhas lamentações sobre o amor e a falta que ele faz. Ainda por cima fui acusada de ser amarga e melancólica e a carapuça serviu como se fosse alta costura.

Eu tenho mesmo guardado o lado ruim de todas as coisas que passaram por mim. Ou melhor, não só tenho guardado como tenho cultivado com todo cuidado. Fico remoendo eternamente cada palavra dita, cada palavra não dita, cada ausência de afeto. Foi o sapo, é claro, quem me disse que eu estava amarga. E desde que fiquei amarga, não consegui escrever nem mais uma frase. Todas as coisas parecem iguais e sem sentido. Tornei-me meu pior pesadelo: uma pessoa sem fé. Sem fé principalmente na coisa que sempre fez meu mundo girar – o amor. Acho que é por isso que não consigo escrever mais. Meu tema principal se perdeu. O que dizer sobre algo em que você não acredita mais? E por que tanta amargura? Afinal, eu não perdi nada que mais alguém já não tenha perdido. A vida é assim, a gente sai na chuva para se molhar.

Eu me lembro do exato momento em que decidi entregar meu coração ao sapo. Eu sabia que o risco era grande e que provavelmente ele não me seria devolvido por inteiro, mas resolvi fazê-lo mesmo assim. E eu me lembro o por quê. Porque em um ano, o maior arrependimento que eu poderia ter seria o de não ter vivido aquela paixão. Eu me lembro de ter pensado isso, de ter levantado da minha cadeira e andado até ele, encostado na porta da varanda, me olhando com uma expressão triste, já meio conformado em saber que eu não cederia. Mas ao invés de me esconder em meu mundo particular, eu disse a ele o que eu estava pensando, e aquilo mudou tudo. E a partir daí eu fui dele e ele foi meu, e foi assim por tempo o bastante para que eu escrevesse durante um ano sobre ele.

Todos os textos que eu escrevi de lá para cá tiveram um toque dele. Foi algo que ele disse, algo que ele fez, algo que ele me mostrou, que trouxe a inspiração que eu precisava para escrever sobre o ponto de encontro entre a vida e o meu mundo. Quando ele se foi, eu continuei escrevendo sobre ele e sobre esse amor perdido que foi se tornando aos poucos cheio de ressentimento e amargura. Deixou de ser aquele amor delicado, nascido de palavras cheias de desejo em uma noite silenciosa, para tornar-se um monstro verde de ciúmes e pretensões de posse. Mas aquilo que a gente segura com as mãos fechadas escapa por entre os dedos, e eu também escrevi sobre cada parte daquilo que eu perdia.

Agora minhas mãos estão vazias e eu não tenho sobre o que escrever. Então escrevo sobre o monstro verde e torço para que assim eu o esteja exorcizando, e para que no lugar dele volte a existir o espaço do desejo, o mesmo desejo que me fez entregar meu coração de menininha.

4 comentários:

Kelly Fontoura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kelly Fontoura disse...

Nanda,
a senhorita não acha que deu muito ibope para este sapo encantado?
Acredito que esta fase de amargura será passageira, você só não pode deixar que ela tome conta de seu ser.

Faça um retrospecto de sua vida sentimental e veja quantos sapos encantados já não apareceram e você achou que eles poderiam virar um príncipe e na verdade eles não passaram de sapos.

Isso vive nos acontecendo, mas muitas vezes, nos momentos de trauma, como diz nosso amigo Felippe, não nos damos conta disso e o temor de que um novo amor nunca mais surja parece ser o mais provável. Mas como um amor pode surgir se não nos permitirmos viver e deixar o que nunca foi nosso partir?

Em se tratando de relacionamentos não sou a pessoa ideal para dar conselhos, mas acho que venho aprendendo um pouco com meus últimos relacionamentos e tenho percebido que não vale a pena ficar amargurada, se não deu certo, apenas podemos lamentar, o melhor é levantar a cabeça e seguir nosso caminho e aguardar o que temos pela frente.

Beijos e espero que essa fase passe logo, e que venham as inspirações para os próximos posts!

PS: pode ser uma visão muito romanticazinha e boazinha, mas no fundo acredito que pode funcionar...hehhehe

Rubinho Berenguer disse...

Fernanda,
há muito venho lendo seus posts e do Rimaci, gosto muito de ler vocês. Algumas vezes pensei em postar comentário, mas como fiz muitas vezes em minha vida (sinceramente não sei se certo, ou errado, talvez ambos, afinal por que temos que destinguir um do outro? resquícios da educação cristã? quem sabe? talvez...) me escondi ou revelei-me em silêncio.
Hoje seu post foi-me um espelho, não por causa de principes e sapos, ou suas versões femininas, mas por ter me escondido em amizade, posto-a em um pedestal como princesa, e feito-me um sapo que não acreditava (continuo sem acreditar) em contos de fadas.
Falar de sua tristeza e de sua amargura não é errado, mas (lembrando de Rubem Alves) é belo. Sim a tristeza é bela e conviver-mos com ela, respeitando seu espaço, é humano. Seja assim, não procure onde errou para autoflagelo, pois sei o que é isso.
Passei anos de olhos
bem fechados
mesmo que abertos
fiz do meu amor sincero
humano carnal
e transcendental
um relicário num pedestal
num museu de arte qualquer
ficava ao longe
a admirar
a imagina-la em meu pescoço
e idealizei a amizade

Num impulso de ser sapo
matei-me como principe
fiz-me sapo conselheiro ouvinte
fiz dela meu divã
minha analista
...
No dia da descoberta
da futura paternidade
ouvi da imparcial analista amizade
"não sei se o parabenizo"
"ou se dou meus pezares"
numa crescente interrogação
saio de fininho
quebro o pedestal do relicario
ameaçando jogar-la
numa lata de lixo
nesse instante
uma verdade clareou o ambiente
fez minha reliquia
virar mulher e ciumenta
mostrando-me as garras da leoa
escondida
numa amizade subtendida
sub-entendida.

Abraços a vocês
e bom ano de 2010

Fernanda Furtado disse...

Kelly, obrigada pelos conselhos. Eu tb acho que essa amargura vai passar logo.

Rubinho, fico muito feliz em saber que vc tem acompanhado o blog, e principalmente por vc ter postado um comentário finalmente. Obrigada por respeitar minha tristeza. Eu sei que é chato ouvir alguém se lamentar. E obrigada por ver nela alguma beleza, e pela sua poesia. Bjos para todos.