domingo, novembro 22, 2009

“Tu falou com Zé que o João contou...”

Começa quando o cara se mostra muito educado numa conversa com a moça. Ele sorri, gentil e atencioso, e parece disposto a resolver algum problema dela, ao que ela responde demonstrando merecida gratidão. Tudo muito normal. No outro dia pela manhã, ele é indagado pela primeira vez: “você ta dando em cima daquela moça?” ou “cara de pau sua se jogar assim, você nem conhece ela direito!”, e pronto, está instalada e inaugurada mais uma fofoca.

A fofoca faz parte da história da humanidade desde... Sempre. A primeira ocorrência documentada remonta a época do paraíso, quando a serpente disse a Eva que Deus não queria que eles comessem a maçã porque ficariam mais espertos. De lá pra cá, toda grande história envolve pelo menos uma grande fofoca. Napoleão, Michel Jackson, Jesus e Getúlio Vargas são apenas alguns exemplos de grandes nomes da história mundial que sofreram com uma ou mais fofocas.

Se nem Deus nem o seu filho ficaram imunes, tenho de concluir que a fofoca é um mal necessário. Resta-nos descobrir a quem. Já tive oportunidades de demonstrar aqui a minha teoria sobre a necessidade humana de apreciar a desgraça alheia. Mas a fofoca vai além. Ela é a consolidação de uma ação coletiva para perpetuação da desgraça moral alheia. O que explica isso? Que necessidade social justifica esse tipo de atitude?

Meus amigos sociólogos me condenariam, mas eles não lêem blogs. Entendo que criar fatos moralmente degradantes sobre outras pessoas ajuda a reforçar o peso das regras morais de uma a sociedade. Ao inventar (ou aumentar) que fulaninho fez e aconteceu, sempre o fazemos atrelando sua atitude a uma conduta moral inaceitável: roubo, traição, viadagem, etc. Não existe fofoca do bem. Ninguém inventa que fui cercado por três loiras catarinenses e as rejeitei porque amava minha namorada. A idéia é de que há, no contexto da fofoca, algo de reafirmação do que considero inaceitável e da sintonia entre o que penso e o que vale para a sociedade que me rodeia. Se eu invento que Joãozinho usa calcinha rosa e ninguém acha absurdo, talvez seja o momento de rever meus conceitos. Provavelmente uma calcinha rosa não seja mais do que a última moda entre os galãs de novela. O mundo é flexível. A fofoca nos ajuda a acompanhar as mudanças na maré.

Você deve estar se perguntando se eu sou maluco ou ignorei propositalmente que a fofoca é (quase sempre) algo não intencional e ninguém reflete sobre como vai a sintonia entre suas regras e as do mundo enquanto tomam café da manhã. E se você pensou isso, tem razão. Onde está essa complexificação toda da fofoca, já que a maioria das pessoas a faz sem empreender nada semelhante a esse esforço reflexivo que cito acima? Há ainda aspectos que eu ignoro, como a indústria da fofoca retroalimentada pelo mundo das futilidades artísticas, e a fofoca gerada por problemas de comunicação, de fato. Fernanda me convenceu de que eu não tinha explicações convincentes para essas questões. Mas eu penso que, ignorando alguns aspectos que não consigo explicar bem, é possível fazer com que vocês concordem comigo.

Entendamos por fofoca aquela feita de propósito, gerada pelo mal que vez ou outra domina os corações humanos (e também pela necessidade de ver a desgraça alheia). A fofoca é apenas um meio de se fazer mal a alguém, como tantos outros. No entanto, os leitores devem concordar que há muito mais gente fazendo fofoca do que dando tiros nas cabeças dos inimigos. No fundo as pessoas sabem (em algum canto escuro do cérebro) que as regras morais são na verdade o que sustenta essa sociedade absurda e que agir apoiado nelas tende a dar certo, mesmo que seu objetivo seja destruir alguém, o que na maioria das vezes não tem nada de nobre. Quando eu invento uma fofoca estou, ainda que inconscientemente, examinando a moral do mundo que me rodeia e reavaliando o quanto essas regras estão introjetadas em mim e nos que me rodeiam, além de estar fazendo uma puta sacanagem a alguém. E quando a fofoca é gerada sem a intenção, percebe-se ainda o peso dos valores morais pelo simples fato daquilo ter se espalhado. A fofoca tem de ser interessante, e isso serve para qualquer um dos tipos: comercial, involuntária ou maldosa. Para ser interessante ela deve, primeiro, conter algum quinhão de desgraça alheia e, não obstante, atacar em cheio alguma convenção social mais ou menos difundida (e forte). De um modo ou de outro, a fofoca sempre exige a avaliação do que julgamos correto, e promove o diálogo entre o nosso conjunto de regras e os que a sociedade, naquele momento, sustenta.

Fofoqueiros são seres maldosos que querem destruir outro; ou simples desocupados que gostam (mais do que a média) de ver pessoas se dando mal; ou funcionários da imprensa marrom. Em todos os casos, a questão moral está presente. No entanto, como ninguém ainda me paga para fofocar, a segunda opção me parece mais agradável, então, quando eu fofocar sobre algum de vocês, considerem que sou desocupado o bastante pra me esforçar em ver alguém numa saia justa, por puro prazer. Perdoem-me e sejam felizes.